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O amor é sexualmente transmissível


“A beleza é um atributo da autenticidade. E você é, por si só, autêntica”, reafirmei, enquanto apagava mais um cigarro. Ela não sabia como agir. O rosto ruborizou. As mãos se aproximaram, estavam juntas, uma sobre a outra. Transparecia uma timidez ingênua por detrás daquele jeito confiante. Olhos puxados, pele morena, uma leve etnia indígena. Cabelos que caiam encaracolados por sobre os ombros. “Eu não seria capaz de um embuste tão sofisticado, acredite”, finalizei com um ar de sinceridade. 

Olhou desconfiada. Sabia que era um cortejo. Avaliou por instantes as palavras que lhe dirigi. Queria entender a seriedade daquilo. Não conseguia disfarçar o sorriso, por mais que tentasse. Tomou um longo gole de cerveja. Era uma long neck, enfeitada com um canudo fino, branco. Os lábios grossos, pintados de um tom forte de vermelho, puxavam o líquido para a boca. A mão esquerda tocava os cabelos. “Tá bom...” concordou. 

Aproveitei a guarda baixa para me aproximar. Pude sentir o perfume dela. Levemente adocicado, guardado em algum lugar daquele pescoço ou daquela nuca. Quis explorar aquele cheiro, encontrá-lo. Passei a mão por debaixo da cintura, enquanto ela dirigia o olhar para mim. Senti o respirar vindo da sua boca. O movimento do seu tronco era rápido. Estava nervosa. Olhos nos olhos. E, num instante, os corpos colaram, uniram-se numa sintonia invisível, enfeitiçados pelo movimento contínuo de nossas bocas. O sangue começava a arder em álcool e entrega. 

Levei-a para o carro. O momento que passamos para pagar a conta e caminhar até o veículo foi o suficiente para incendiar ainda mais aquilo que crescia entre nós. Um algo inexplicável, uma atração instintiva. Ali mesmo recomeçamos. Eu me envolvia no seu cheiro, minhas mãos se perdiam em meio as curvas do quadril e do busto dela. Havia uniformidade no corpo daquela menina. Não eram as formas publicitárias, perfeitas, de televisão, mas as curvaturas seguiam um ritmo, quase que musical. 

Eu a apertava com força para senti-la em toda plenitude. Retirei a blusa dela sem me importar com nada. O mundo parou. Tudo era o calor que havia dentro daquele carro. Os vidros embaçados. O ar úmido, pesado. Não havia mais pensamento, nem lógica. Nada mais existia, senão aquele sentimento devastador que nos consumia. Era uma espécie de reação natural aos instintos. Eu não controlava mais racionalmente. Meus impulsos e movimentos, eles apenas vinham. 

Ela parecia afogada no mesmo transe. A mão subia pelas minhas pernas. Os olhos, fechados. A boca, de um vermelho agora já borrado, grunhia palavras sujas e bonitas, na medida em que nossos corpos se comunicavam. Estava em cima de mim. Balançava o quadril num movimento cíclico. O corpo, o cheiro, o toque ficavam cada vez mais intensos. Queria ela nua, conhecê-la na sua intimidade. Por isso, soltei a fivela do cinto, abri o botão da calça. 

Queria rasgar-lhe as roupas ali mesmo e dar vazão àquela energia. O espaço pequeno do carro não era dificuldade. Cheirava cada parte do corpo daquela mulher e, em cada centímetro, percebia uma fragrância diferente. E no momento seguinte estávamos juntos. Grudados. Éramos um só. Ela gemia no meu ouvido, sem se preocupar com pessoas, com motivos, com problemas, com o fato de eu ser, ainda, um desconhecido. Eu senti-a por dentro, os corpos quentes e o respirar arfante. 

O tempo simplesmente não existia mais. Havia apenas aquele movimento, que a cada segundo tornava mais forte e intenso a relação que tínhamos. Não sabia quando aquilo iria acabar. Não queria que aquilo acabasse. E, num momento, tudo atingiu o auge. Ele veio em conjunto, como uma explosão interna de energia, sentimentos e sensações. Foi tudo tão forte e tão grande que quando paramos, ficamos ali, abraçados, sabe-se lá por quanto tempo, ainda nus, dentro de um carro quente, de vidros embaçados, estacionado em algum lugar deste mundo.

“O sexo nos aproxima dos deuses”. Ela pousou a cabeça sobre meus ombros. Os braços me agarravam. Não havia mais indício da mulher que foi minutos atrás. Parecia uma menina, uma garota em um breve descanso. 

Levantou-se, olhou nos meus olhos, beijou-me os lábios. Disse que precisava ir. 

Não, eu não a deixaria. 

 O amor é sexualmente transmissível.

*A frase: "o amor é sexualmente transmissível" foi retirada do livro "Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios" do Marçal Aquino

Das Paixões


No momento em que a vi, tive uma certeza. E ter certezas num mundo como esse é raro e, no mínimo, suspeito. As paixões têm esse poder de tornar algo uma verdade, ou uma potencial verdade, no meio do vale de dúvidas que vivemos. Por isso são um tanto perigosas, carregam esse caráter irracional de uma certeza sem lastros de razão.

As paixões podem se pautar por coisas objetivas: gosto, beleza, sexo, custo-benefício, sorriso e um sem número de características, mas a maior parte dela é embasada num plano metafísico. Não se sabe nunca o porquê, nem por onde se começa uma paixão. Ela simplesmente começa.

Algo, ou uma pessoa, pode reunir toda a gama de características objetivas que levam ao sentimento, mas isso não será suficiente se o invisível, metafísico – ou seja lá o que for – não existir.

Escritores como Garcia Márquez descrevem paixões como febres fortes que abatem o indivíduo, aumentam a temperatura corporal e tem sintomas parecidos com a de uma doença (ler Amor nos Tempos de Cólera). 

Mas o consumo interno de uma paixão pode ser calmo, apesar de igualmente inquietante. Depende da forma como a pessoa lida com o sentimento.

O que há em comum entre os apaixonados é o consumo de tempo, energia e força que ela despende. Parece que tudo só fará real sentido se aquela paixão for vivida em sua plenitude. 

Deixar-se levar por uma paixão depende, ainda que minimamente, da disposição do apaixonado em sentir. 

Paixões podem ser asfixiadas, dependendo do contexto em que ela vier. Asfixia-la tem um problema: deixará marcas. Uma paixão nunca vai embora imune, por mais esforços que fizermos.

E como explicar isso tudo a ela?

Sentimentos são únicos, individuais e intransferíveis. Não há como provar para a outra pessoa que tudo aquilo é real e não, não é um embuste de quinta categoria. Sentimentos dependem de confiança. Uma confiança cega na outra pessoa.

Imagino o amor, que é um estágio a frente da paixão e que prescinde disso para existir, como uma ponte onde duas pessoas, cegas e de mãos dadas, atravessam. Elas precisam confiar uma na outra para seguir o caminho até o outro lado e não podem, em nenhum instante, largar a mão do parceiro. Amor é, antes de tudo, um pacto de confiança.

Confiança depende de tempo, nunca é instantânea. Paixões são instantâneas e, por isso, irracionais. É um sentimento que pulsa forte dentro do corpo, retira o indivíduo de qualquer inércia que ele esteja envolvido e o faz mudar profundamente.

As paixões fazem parte da porção do inexplicável que habita em todo o ser humano. É uma espécie de fogo que nos movimenta, seja no sentido de uma pessoa em específico, seja no sentido de um objetivo ou de uma profissão e – pior - urgem por serem vividas e consumidas.

E nisso, surge um paradoxo: ao mesmo tempo em que a paixão leva a uma certeza quase que imediata, ela desperta também a uma insegurança que beira o irracional. Será que ela sente o mesmo que eu? Será que sou capaz?

No final de tudo,  nunca se sabe. A paixão é isso: não saber até o fim e, por isso, correr riscos, apostar.


E foi o que fiz, apostei. 

De uma nota só

É a mesma música preferida. A mesma. Putz, você me imita, né?


É branquinha, sorriso bonito que gosta de distribuir. Conta piada. Faz aquela carinha de séria às vezes e me soa, quando conversa, desprotegida, confusa. É bonita, mais ainda com aquele sorriso. Encantadora.


Não deixa pagar o cinema, nem a bebida. Faz aquela uma carinha de absurdo quando dou uma volta maior para deixá-la em casa. Rio e a minha vontade é de falar-lhe galanteios. Não faço. Digo só que não tem problema, não precisa se preocupar.


A conversa flui bem. Gosto do jeito que ela fala. A sinceridade que ela usa. Percebo na entonação das palavras uma dose de sentimento. Um sentimento solidário que ela transpira. É inteligente e isso é empolgante. Parece sempre perdida, confusa.


“Deixa ser o seu norte?”


Falta coragem, sempre. Ah, essa maldita coragem. Podia ficar ali, observando aquele jeitinho dela de menina e aquela postura de independência, de mulher.


Não admito que só eu, nesse imenso universo masculino, tenha percebido e se encantado com ela. Deve ter tido mais alguém. É um absurdo que ninguém nunca tenha reparado naquele sorriso, naquele jeito indefeso.


“Eu já amei e fui correspondida”.


Sim, sim, claro. Não seria possível, naquela altura do campeonato não ter aparecido ninguém antes de mim que se encantasse com ela.  Claro que alguém já se encantou. E talvez não tenha sido só um, mas vários. Não há como fugir da aura que ela exala.


Fico imaginando, eu e ela. Levaria com certeza para assistir a filmes. Os melhores possíveis. Emprestaria os livros que falam sobre amor, mostraria os poemas que escondo debaixo do meu colchão e a deixaria falar sobre a vida, sobre tudo só para ser absorvido pelo encanto que ela é.


Ela deve ter um beijo forte, profundo.


Mente roda, boca seca. Peço mais uma cerveja. De repente, nada faz sentido.


Fico feliz por dentro. Tomo coragem.


Logo depois, hesito.


Ela ali, na minha frente. Mais encantadora, impossível.


Então tudo acaba. As horas voam.


Ela levanta. Vai embora.


E não volta.

Mulher assusta?

Muita mulher me pergunta: ‘eu assusto?’


Talvez essa seja a dúvida existencial da maioria das mulheres solteiras e que responde por parte considerável da aflição delas.


Assustam? Geralmente respondo com um galanteio de quinta categoria do tipo “bem que eu queria um susto desses na minha rede”.


Mas como o galanteio não é suficiente para a aflição delas, passei a pensar sobre essa situação da solteirice feminina moderna.


Mulher assusta? Ou melhor, que tipo de mulher assusta?


Não posso responder pela nação masculina, mas tenho algumas impressões sobre isso.


Sim, de fato, há algumas delas que botam medo, fazem o macho tremer nas canelas, pedir arrego, dormir de luz acessa.


A independência feminina ainda é mal digerida pela macharada. Ela faz ligar o alerta, o medo congênito da cornice ou do fato de ele – com todos os seus defeitos e chatices – poder ser a qualquer momento substituído.


Isso é uma situação nova que há 50 anos não existia. Veio com a revolução sexual dos anos 60/70.


Antes, a gente escolhia a esposa e ela era dependente financeiramente, socialmente e amorosamente do homem. Havia uma relação de poder clara, que hoje – felizmente – não existe mais.


E muita mulher faz questão de demonstrar isso, com orgulho.


A inteligência é outro fator que vem nesse balaio. A mulher bem articulada, que opina e discute com fluidez e que se porta de uma forma mais contestadora também mete medo.


Antes, elas não tinham opinião. Hoje defendem e opinam, em muitas ocasiões, com mais talento e desenvoltura que os homens. É outra situação nova, principalmente para quem foi criado dentro de um universo machista (eu, por exemplo).


 Lidar com isso e adaptar a essa situações, para muito homem, é complicado.


O que peço a essas amigas que tanto se afligem com isso é: ‘calma, não vire uma descerebrada dependente porque isso é pior’.


Homem que não valoriza mulher inteligente/independente é, no fundo, no fundo, um idiota completo e – pior – com complexo de insegurança.


O importante é a mulher conservar sua feminilidade, as coisinhas, os jeitinhos e até as frescuras de mulher.


Acho que quando elas chegam ao ponto de perder isso, ai sim, deixam de ficar atraentes – por mais bonitas que sejam.


De resto, a inteligência e independência também são fundamentais – apesar de pouco valorizado.

O samba era ela

Decidi levá-la ao samba do Tavares.


Noite quente  no bar, cerveja gelada. Ela reclamava da vida, do por que dos porquês e de que eu deveria ser mais organizado e deixar de insistir em deixar a toalha molhada em cima da cama, ou para eu dar jeito naquela minha barriga de cerveja que elanãoaguentamais se não vai me trocar pelo vizinho atlético e bonitão.


Eu sorria e dizia que sim, falava amorvamosouvirosamba que o Tavares nos chamou. Ou amor, depois falamos sobre isso e depois eu sorria e pedia mais cerveja e ela não parava de falar da cozinha, da organização, da vida, do dinheiro, dos cheques, da casa ruim, das baratas.


O Tavares é um cara gente fina. O Tavares chamou uma banda de amigos para fazer o samba e gelou bem as cervejas naquela noite. Ela ficava no blá, blá, blá e eu agradava o meu paladar com o amargo gosto de álcool e cevada.


E ela continuava nos quiprocós cotidanos e eunãoaguentavamais, mas a banda dos amigos do Tavares era tão boa que não consegui mais prestar atenção em nada – “verde como o céu azul da esperança (…) é negra toda a tristeza dessa vida (..) já não sinto saudade de nada que vi” - e eu me senti em outro mundo, num mundo de pandeiros e negras rebolando ao som de um samba. Um mundo de rosas que exalam cheiros femininos, de dores, de amores e das alegrias e das tristezas dessa vida.


Estava imerso, bêbado, ausente.


Ela então se levantou e aí começou a sambar. Fechou os olhos e começou a sambar. Esqueceu do mundo e começou a sambar. A sambar com toda a força que ela tinha no seu corpo. O samba era ela.As notas entravam nos seus poros e o seu compasso se tornava melodioso a cada pequena mudança no ritmo. Ela se transformava num mundo em moinho, no jardim de rosas, no verde da esperança. Ela estava leve, tão leve, tão bonita, hipnotizada, dominada, sambando como se nada mais existisse.


Como se eu não existisse.


Tive vergonha de mim, da minha barriga, da toalha em cima do colchão e dos pratos que eu não lavava, na vida que eu não dava para ela.


Ela era tudo, minha vida, meu significado, meu samba e eu não sabia.


Foi tarde. Não havia mais vergonha que curasse. Nem choro que fizesse passar. Já não havia mais volta.


Fui inventar de levá-la no samba e ela me trocou pelo Cartola.

Mulheres que conheci

Tenho amigas.


Não sou daqueles caras que acham que não existe amizade entre homens heterossexuais e mulheres.


Acho isso, aliás, uma besteira.


Tenho amigas que a relação já dura anos - sem nenhuma pegação, diga-se. Inclusive duas das melhores amizades que tenho são com mulheres. Trato-as como irmãs e me sinto como tal, um irmão.


Muitas ex-namoradas minhas nunca gostaram desse fato. Mas acabaram aprendendo a conviver.


A amizade entre homem e mulher é diferente, por exemplo, entre a de mulher e mulher.


Mulheres são competitivas até entre amigas. E por isso certas coisas elas preferem um amigo para compartilhar.


Conversar com elas, ser confidente em diversas situações, ensinou-me muito sobre elas.


Nós, homens, somos criados vendo as meninas como um bicho esquisito, diferente de tudo que é comum. Por isso e até por autodefesa, bolir elas era uma das coisas mais divertidas da infância.


Eu, por exemplo, decapitava as bonecas das minhas colegas só para ver o chororô delas. Ah, e pregava chiclete no cabelo também.


Nunca entendi a gravidade desses atos até crescer e me tornar amigo de mulheres.


Elas são mais sensíveis, a criação delas é baseada em valores diferentes das dos homens. Muitas querem ser protegidas - até aquelas que, por fora, parecem duronas.


Em geral, são mais inseguras que os homens. Precisam provar para si e para todos que é bonita - mesmo isso sendo, em muitos casos, algo óbvio.


E mais: não são bobinhas como elas nos fazem parecer pensar que são. Essa, para mim, é a melhor característica delas. Uma espécie de cinismo calculado.


Detalhistas, prestam a atenção em coisas que nós, homens, jamais imaginamos.


E carregam essas idiossincrasias que movimentam o mundo estético: frizz, pontas duplas, celulite, gordura e todas essas coisinhas pequenas do imaginário feminino que - apesar de já terem tentado me explicar - jamais entendi e jamais vou querer, mesmo, entender.


Tenho fascínio por isso e pelo jeito delas - sempre cuidadoso, sempre cheio de detalhes, de mimos.


A feminilidade é a coisa mais bonita em uma mulher, na minha opinião.


Mulheres

Mulher tem que ter frescurinha. Uma hora para se arrumar, no mínimo. Batom, maquiagem, lápis nos olhos, experimenta roupa, muda, experimenta de novo, troca. Perfume doce, cheirosa, sorriso no rosto, aquela carinha de “como é que to?”. Horas em frente ao espelho, sapatos com fru fru, sem fru fru, sandálias, saltos e outras infinidades de coisas do universo femino.


Elas, tão bonitas com aquele medo de insetos, nojo das baratas, os gritos e o clamor por ajuda para matar aquele bicho asqueroso que tanto as assusta. O medinho dos filmes de terror, a mão apertando o encosto da cadeira do cinema, os olhos fechados, no escuro, nas cenas mais assustadoras. O respirar rápido, aquela aura de fragilidade que tanto as envolve. O abraço apertado, de medo, em aqueles que as acompanham. A segurança que tanto procuram.


As vozes, os sorrisos tão bonitos e até aquela dose de falta de sinceridade que elas carregam. E a aquela competição interna, feminina, que só elas entendem, o que dizer? Os olhares tortos, retos, direitos, cruéis, bonitos. A ida conjunta ao banheiro, horas conversando, ela deitada na cama, no celular, fofocando, contando histórias, causos. As revistas femininas espalhadas pela casa, o discurso feminista declamado com ardor.


E pela manhã, sem maquiagem, carinha de sono, “quero dormir mais”. O abraço matutino, aquela vergonha besta de se achar feia quando acorda. Ela se levantando, vestindo a roupa. O ritual do café tomado em conjunto, o abraço, o beijo, aquele carinho e preocupação que elas tanto reservam. “Se cuida”, “Vá ao médico”, “Deixa que eu faço isso, meu bem”. A cumplicidade, o almoço a dois e ela ali falando das amigas, da vida ou do sapato que viu e achou bonito. A cara de preocupação, de quem quer fazer parte da sua vida. Elas e o desejo intenso de serem únicas, importantes, e são, dentro de todas as singularidades que elas têm.


Rostinho vermelho, quando envergonhadas, sem saber para onde olhar. “Não queria que me visse assim”. Ou então  nervosas, distribuindo broncas, falando alto, demonstrando autoridade. Apaixonadas, lutam e querem proteger aquilo que têm de mais importante. E com toda agressividade, não perdem a sutileza, nem a beleza dos gestos. Tristes, chorando, cabeça encostada no peito de quem abraça, olhos fechados, derrubam qualquer um, derretem qualquer coração duro, são invencíveis.


Na cama, corpo cheio de manhas e artimanhas. Ela ali, se contorcendo de prazer. Lábio inferior sendo mordido. Abraços apertados. Corpo com corpo. Pernas entrelaçadas, barrigas unidas em um movimento constante. Gemidos e palavras românticas, sacanas, ou simplesmente palavras, ao pé do ouvido, pronunciadas baixas, ou aos gritos. Elas ali na cama, no ritual de tirar as peças de roupas, de aproximar o corpo, de se sentirem rainhas dos seus  homens. Dominam e são dominadas, com a mesma paixão  com o mesmo carinho, com o mesmo amor.


A elas, que pouco conheço e muito me interessam, só me resta dedicar algumas pobres palavras e um sentimento de admiração pela sutileza da vida que carregam.

Como Homens Podem Ser Cruéis

Eu fumava. Aspirava lentamente a fumaça tóxica e a sentia preenchendo os meus pulmões. Depois soltava o ar pela boca, lentamente. Ela estava sentada ao meu lado na calçada. Vestia um short curto, uma blusa vermelha com uma estampa da moda. Pernas à mostra, sapatilha baixa. A maquiagem leve, quase imperceptível. Estava muito bonita. O perfume que usava se misturava com o cheiro de cigarro. Nas costas, a tatuagem de uma borboleta colorida. O olhar era sério, frio. Os olhos miravam o vazio.


Ela não falava nada. Mergulhada em silêncio, estava pensativa. O semblante sério. Eu continuava fumando, sentindo todas aquelas substâncias tóxicas entrarem e saírem meu corpo. Bebia vez ou outra um gole de cerveja que estava ao meu lado. Ofereci, de novo, um cigarro. Ela nem olhou. Estava triste, decepcionada. Sentia que queria um abraço apertado, um carinho, uma conversa leve para acalmar o coração. Havia frieza, distância.


As mãos dela sempre juntas formavam uma espécie de circulo. Elas estavam sobre as pernas. A cabeça pesada, baixa. Unhas pintadas de verde, cor forte. Ao fundo, longe, as pessoas bebiam e ouviam alguma música estranha. Eu podia ceder ao perfume dela, àquela tristeza tão bonita e dizer-lhe as mais belas mentiras que eu sentia naquele momento. Diria que eu a amava e que superaríamos aquilo. Tudo não passava de um erro de percurso. Juntos, éramos fortes.


Eu podia assumir tudo ali, os riscos principalmente. Diria que nada importa, que foda-se a liberdade de ficar com quem quiser, que tudo era uma idiotice tremenda e que eu a amava, de verdade, apesar de nunca ter demonstrado isso. Eu sabia que mesmo fazendo cara feia, ela acreditaria. Havia um risco. O risco de tudo implodir. O risco inerente a todo relacionamento, à vivência a dois. O risco da decepção. Evitei as palavras que eu sentia que tinha que falar. Covardia. Estava paralisado. Fumava. Não sabia o que dizer.


- Por que você fez aquilo?


Silêncio. Eu não queria responder. Não quero as cobranças. Elas me sufocam.


- (...) Desculpa.


O olhar vazio modifica-se. Agora é a tristeza. Inunda os olhos. Vira-se. Ela não quer chorar na minha frente. Meu coração bate rápido. Por que não tenho coragem? Será que não é ela? Devia falar que a amo, porque sei que a amo. Mas tenho medo. De quê? Não quero mostrar fraqueza. Amor, sentimento, coração... Não sei, há a pressão, somos muito novos.


Tento quebrar o clima. Falo do cabelo dela, mais bonito pintado de ruivo. Digo que adoro o perfume e reparo no colar diferente que agora ela usa. Tento seduzi-la. Sorrio. Ela tenta se envolver. Mas a tristeza não lhe escapa os olhos. Esses olhos tristes são um peso para mim. Não consigo me livrar deles. De alguma forma, a dor dela pune a minha fraqueza. O que eu posso fazer? Prometer o que não posso dar? Assumir o que não posso assumir?


Ela me pede explicações. O ar agora é de ameaça. Diz que vai embora se eu não falar nada. Quer uma briga. Está violenta. A respiração dela é afobada. A tristeza saiu dos olhos, deu lugar a uma espécie de ódio. Sou o culpado por todo esse sofrimento, mereço o pior. Como se a tristeza dela não fosse o bastante para me atingir. Ela queria vingança. Provocação. Confronto.


Não, não caio nessa. Mando se acalmar. Se for para briga, eu é que saio, que vou embora. Isso não vai resolver nada. “Sente-se”, falo. Dou um abraço nela. Ela finge se afastar, depois relaxa nos meus braços. Ela encosta a cabeça no meu ombro. Sinto seu corpo tremer. Ela segura o choro e a tristeza dela rasga-me o peito. Aperto-a com mais força. O cheiro do perfume mistura-se com o do cigarro. Estamos juntos. Agarrados. Apertados.


Lembro do nosso sexo. De como ela não se entregava. Valente, brigava na cama, reagia, exigia seu prazer. Em outros momentos deixava-se ser dominada. Ela gostava desse jogo. Lembro do corpo dela estremecendo de prazer, dos olhos fechados e da boca semi aberta. Ela tinha medo dos gemidos, vergonha, mas não conseguia deixar de gemer. O corpo inteiro arrepiava-se no clímax. Eu tocava e sentia todos os seus pelos em pé, enquanto ela, inundada no próprio prazer, apenas fechava os olhos e respirava apressadamente. Era intenso.


Os filmes que vimos juntos, os planos que fizemos, os cafés que tomamos, os livros que trocamos. Foi tudo forte, envolvente. Ensaiei “eu te amos” para ela, procurava um momento para deixar escapar a frase. Não conseguia suportar o peso dessas palavras, o risco e tudo o que vinha com o amor. Tive medo. O sorriso dela tinha o poder de me hipnotizar. Era mais linda ainda quando sorria. Fazia tudo só para ter como o prêmio aquele apertar de olhos, aquela feição tão bela quando estava feliz. A tristeza dela era uma faca que cortava o meu peito. A covardia, nosso algoz.


Ela se recuperou. Disfarçou um sorriso. “Eu supero”. Meu coração ainda batia forte. Acendi outro cigarro e ofereci-lhe um. Ela aceitou. Enquanto fumávamos, a música do ambiente tornava-se mais alta. Falei para ela o quanto eu detestava lugares com muita gente, sou um antisocial. “Chato”, ela disse. Rimos. Foi o momento que tomei coragem. Veio instantânea. A coragem, a tão temida coragem. Senti naquele momento a clareza da situação. Um insight se apoderou de mim. Era o momento certo. Tinha que falar.


-  Acabou. Não dá mais.


Leia também "Como As Mulheres Podem Ser Cruéis".

Como as Mulheres Podem Ser Cruéis


Ela sorria. Um leve aceno. Chego perto. Sento ao seu lado. Cabelos pretos longos, olhos puxados, um belo sorriso. Usava um vestido vermelho. "Ano do coelho, traz prosperidade", diz. Maquiagem nos olhos, um sapato baixo, com um frufru no encaixe do pé. Perfume não muito doce e usado com sobriedade. Formava um belo conjunto. Harmônico.


Ela olha e sei que está analisando. A primeira coisa: segurança. Homens tem que demonstrar que estão seguros de si e do que falam. Segunda coisa: conjunto. Mulheres são detalhistas. Unha cortada, barba pode ser levemente mal aparada, tríade tênis-calça-camiseta devem combinar. De preferência nada muito extravagante. Demonstrar inteligência significa pontuar bem.


Ela fala. Deixo falar. Mulheres gostam de ser ouvidas. Mexe no cabelo: bom sinal. Sorri muito, espreme os olhos quando o faz, fica mais bonita. Reparo no colar que usa, uma pimenta. "Para afastar mau olhado", rimos. Pontuação está alta. Temo ter demonstrado alguma insegurança. Um erro pode ser fatal. Nesse sentido elas são cruéis, não perdoam.


Uma amiga se aproxima. Olha de cima abaixo. Murmura algo no ouvido dela. Saem para o banheiro. É o momento da análise. As duas conversam sobre mim. A amiga com um relatório, um dossiê, aconselha. Ali elas julgarão se ele é apto ou não.


Penso como seria se me cassasse com ela. Se ela sorriria daquela forma depois de anos de relacionamento. Continuaria sendo tão bonita? Faríamos um belo casal? Penso nos problemas que devemos ter. Ela pode ser excessivamente ciumenta. Ou talvez, não suportasse minha desorganização. Implicasse com os livros espalhados, as roupas desarumadas.


Teríamos filhos? Seríamos felizes?


Ela volta. Já não sorri tanto. Temo pelo resultado do julgamento. Demonstra desconforto. Tento ser divertido, mas sou ridículo. A amiga a puxa pelo braço. Saem. Pergunto se ela volta. Me pede para esperar um pouco. Ansiedade. "Estava gostando dela, o que deu de errado?", penso. Intuição aponta: não passei.


Daria uma boa namorada. Gostos parecidos. A mesma música preferida. Poderíamos ver filmes juntos. Tomar sorvete nos domingos quentes. Dormir juntos nas segundas-feiras frias. Compartilhar as frustrações da vida, do emprego, do trabalho. Fazer as posições do kama-sutra. Viajar pelo interior. Conhecer praias.


Ela seria uma boa companhia. Uma companheira.


Volta. Diz que precisa ir embora. Em pé, com a bolsa no ombro. Já não sorri mais. Levanto. Puxo ela pela cintura. Sinto o hálito quente da boca. Aproximo. Boca próxima da boca. Respiração próxima de respiração.


Um segundo e hesito.


Ela ruboriza. Vira-se. Não fala nada.


Vai embora.


 

Dois Minutos


O chão caía e com ele tudo aquilo que eu acreditava, que eu confiava, que eu queria. Ela transformou meu mundo em apenas dois minutos. Parada ali, com as pernas cruzadas e o pé quase tocando o chão, com o copo de caipirinha na mão direita e aquele sorriso, ah, aquele sorriso armado que quebrava as minhas pernas. Eu rastejava, refestelava nas minhas besteiras tentando impressionar, tentando levá-la junto comigo, tirá-la dali e fazer do meu desejo mesquinho de só tê-la, uma realidade. E enquanto ela falava, com aquele ar de interessada, com a mão esquerda no cabelo e com aquela voz, perto de mim, tão perto que sentia o hálito morno e doce, eu morria, morria porque tudo que eu queria era ela comigo mais tarde, sentada num banco na praia, vendo a lua subir, tomando aquele vinho e imerso no cheiro, no gosto, no corpo dela. E eu, idiota, não sabia o que fazer, não sabia como dizer que ela mudou tudo, tudo mesmo que eu sentia, que eu vivia, que eu pensava, em apenas dois minutos, dois minutos, os dois minutos que tive o prazer de desfrutar na presença dela. E ela não me olhou, não me viu e foi embora. Embora. Embora. Embora e me deixou ali sozinho, sem ar, sem vida e disposto a tudo, tudo, para sentir esse redemoinho de novo.


Foto por Olga C.