O samba era ela

Decidi levá-la ao samba do Tavares.


Noite quente  no bar, cerveja gelada. Ela reclamava da vida, do por que dos porquês e de que eu deveria ser mais organizado e deixar de insistir em deixar a toalha molhada em cima da cama, ou para eu dar jeito naquela minha barriga de cerveja que elanãoaguentamais se não vai me trocar pelo vizinho atlético e bonitão.


Eu sorria e dizia que sim, falava amorvamosouvirosamba que o Tavares nos chamou. Ou amor, depois falamos sobre isso e depois eu sorria e pedia mais cerveja e ela não parava de falar da cozinha, da organização, da vida, do dinheiro, dos cheques, da casa ruim, das baratas.


O Tavares é um cara gente fina. O Tavares chamou uma banda de amigos para fazer o samba e gelou bem as cervejas naquela noite. Ela ficava no blá, blá, blá e eu agradava o meu paladar com o amargo gosto de álcool e cevada.


E ela continuava nos quiprocós cotidanos e eunãoaguentavamais, mas a banda dos amigos do Tavares era tão boa que não consegui mais prestar atenção em nada – “verde como o céu azul da esperança (…) é negra toda a tristeza dessa vida (..) já não sinto saudade de nada que vi” - e eu me senti em outro mundo, num mundo de pandeiros e negras rebolando ao som de um samba. Um mundo de rosas que exalam cheiros femininos, de dores, de amores e das alegrias e das tristezas dessa vida.


Estava imerso, bêbado, ausente.


Ela então se levantou e aí começou a sambar. Fechou os olhos e começou a sambar. Esqueceu do mundo e começou a sambar. A sambar com toda a força que ela tinha no seu corpo. O samba era ela.As notas entravam nos seus poros e o seu compasso se tornava melodioso a cada pequena mudança no ritmo. Ela se transformava num mundo em moinho, no jardim de rosas, no verde da esperança. Ela estava leve, tão leve, tão bonita, hipnotizada, dominada, sambando como se nada mais existisse.


Como se eu não existisse.


Tive vergonha de mim, da minha barriga, da toalha em cima do colchão e dos pratos que eu não lavava, na vida que eu não dava para ela.


Ela era tudo, minha vida, meu significado, meu samba e eu não sabia.


Foi tarde. Não havia mais vergonha que curasse. Nem choro que fizesse passar. Já não havia mais volta.


Fui inventar de levá-la no samba e ela me trocou pelo Cartola.

3 comentários:

  1. Esse era um dos que eu mais gostava. Os poucos de Budapeste era maravilhosos, pena que vc não deu prosseguimento.

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  2. Legal que ainda se lembra dessa cronica. Ela é velhinha e reescrevi para postar aqui no blog. Vou procurar alguns contos de Budapeste para reescrever e republicar também. Acho que na epoca só escrevi dois.

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  3. Parabéns pelo texto! Adorei tua escrita, tanto nas matérias e artigos, quanto nesta crônica. É bom ver que há uma boa safra de jornalistas aqui, me dá esperança que meu futuro não é tão desastroso quanto o pintam.

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